Há 40 anos, o DNA inocentava um suspeito pela primeira vez em uma investigação

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Duas crianças se abraçando ao ar livre

A primeira vez que o DNA entrou em uma investigação policial, ele não serviu para condenar ninguém. Serviu para mostrar que a polícia tinha o homem errado. Em 1986, no condado de Leicestershire, na Inglaterra, um exame genético provou que um rapaz de 17 anos que havia confessado um assassinato não podia ser o autor. Quarenta anos depois, o caso de Narborough e Enderby continua sendo o marco de origem do exame de DNA na investigação criminal.

Dois crimes, três anos de distância

Em novembro de 1983, a adolescente Lynda Mann, de 15 anos, foi estuprada e morta em Narborough, vilarejo próximo a Leicester. A polícia coletou vestígios biológicos, mas a tecnologia da época permitia apenas a tipagem sanguínea, que estreitava o grupo de suspeitos sem identificar ninguém. O caso ficou sem solução.

Em julho de 1986, Dawn Ashworth, também de 15 anos, foi atacada e morta de forma semelhante na vizinha Enderby. A polícia chegou a Richard Buckland, jovem de 17 anos que trabalhava em um hospital da região e que tinha informações sobre o crime. Durante o interrogatório, ele confessou a morte de Dawn, mas negou envolvimento na de Lynda. Os investigadores estavam convencidos de que o mesmo homem havia cometido os dois crimes.

“Em novembro de 1983, a adolescente Lynda Mann, de 15 anos, foi estuprada e morta em Narborough, vilarejo próximo a Leicester.”

O laboratório de Alec Jeffreys

A poucos quilômetros dali, na Universidade de Leicester, o geneticista Alec Jeffreys havia descoberto, em 1984, que certas regiões do DNA variam tanto de uma pessoa para outra que formam um padrão praticamente individual. Ele chamou a técnica de impressão digital genética. Até então, ela tinha sido usada em disputas de paternidade e em um caso de imigração.

A polícia pediu a Jeffreys que comparasse o DNA de Buckland com o material coletado nas duas cenas. O resultado, obtido no segundo semestre de 1986, surpreendeu todos: os vestígios dos dois crimes vinham do mesmo homem, confirmando a suspeita de um autor único, mas esse homem não era Buckland. A confissão, obtida de um jovem vulnerável sob pressão, era falsa. Buckland foi liberado e entrou para a história como a primeira pessoa inocentada por um exame de DNA.

A triagem em massa e a identificação do autor

Sem suspeito, a polícia tomou uma decisão inédita: em 1987, convidou os homens adultos da região a fornecer voluntariamente amostras de sangue ou saliva. Milhares atenderam ao pedido, e nenhum perfil coincidiu com o das cenas.

O desfecho veio de uma conversa em um bar. Um homem contou que havia fornecido amostra no lugar de um colega de trabalho, Colin Pitchfork, que lhe pedira o favor. A informação chegou à polícia, Pitchfork foi preso em setembro de 1987 e seu DNA coincidiu com o dos vestígios. Em janeiro de 1988, ele foi condenado à prisão perpétua, no primeiro caso de homicídio no Reino Unido resolvido com base no perfil genético.

Como funciona o exame de DNA na investigação criminal

O princípio continua o mesmo, embora a técnica tenha mudado muito. O DNA humano é quase idêntico entre as pessoas, mas algumas regiões repetitivas variam bastante em tamanho. Os laboratórios analisam um conjunto dessas regiões, chamadas marcadores, e obtêm um perfil em forma de números. Comparar perfis é comparar essas sequências.

Nos anos 1980, o exame exigia amostras relativamente grandes e levava semanas. Com a técnica de amplificação conhecida como PCR, passou a ser possível obter perfis de quantidades mínimas de material, como uma gota de saliva em um copo ou células deixadas em um objeto. Os marcadores foram padronizados internacionalmente, o que permitiu a criação de bancos de perfis genéticos.

No Brasil, a Lei 12.654, de 2012, previu a coleta de perfil genético em determinadas situações e a formação de bancos de dados, que se integram na Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos. Esses bancos permitem ligar crimes ocorridos em cidades diferentes e identificar autores de casos antigos.

Por que a técnica se tornou central na perícia

O DNA mudou a investigação em duas direções. De um lado, ajuda a identificar autores a partir de vestígios que antes não tinham valor. De outro, e o caso Buckland mostra isso desde o início, protege inocentes, ao desmentir confissões falsas, reconhecimentos equivocados e suspeitas baseadas apenas em circunstâncias.

A força do exame, porém, depende de tudo o que vem antes do laboratório: coleta cuidadosa, embalagem correta, registro da cadeia de custódia e interpretação estatística adequada. Um vestígio contaminado ou mal documentado pode perder valor no processo. O perfil genético não substitui a investigação; ele a torna mais precisa.

Perguntas e respostas

Quem inventou o exame de DNA usado pela polícia? A técnica de impressão digital genética foi desenvolvida pelo geneticista britânico Alec Jeffreys, da Universidade de Leicester, em 1984. O primeiro uso em uma investigação criminal ocorreu em 1986, no caso de Narborough e Enderby.

O exame de DNA pode errar? O perfil genético é muito confiável quando a amostra é bem coletada e analisada. Os erros costumam vir de contaminação, falhas na cadeia de custódia ou interpretação equivocada de misturas de material de várias pessoas.

O DNA sozinho basta para condenar alguém? Ele é uma prova forte, mas precisa ser analisado junto com o contexto. A presença de DNA em um objeto mostra que a pessoa teve contato com ele, não necessariamente quando nem como, e cabe à investigação esclarecer essas circunstâncias.

Assuntos: Dois, O, A, Como