Sistema de Vucetich faz 135 anos: como a impressão digital chegou à investigação

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Martelo de juiz e balança da justiça sobre mesa de escritório

Os desenhos na ponta dos dedos já intrigavam cientistas no século 19, mas faltava um jeito prático de arquivar milhares deles e encontrar uma ficha específica em minutos. Esse problema foi resolvido na Argentina. Em 1º de setembro de 1891, o policial Juan Vucetich começou a registrar as impressões dos dez dedos de pessoas detidas pela polícia da província de Buenos Aires, em La Plata. Cento e trinta e cinco anos depois, a história da datiloscopia continua ligada ao sistema que ele criou.

Antes das digitais: medir o corpo

No fim do século 19, o método de identificação mais avançado era a antropometria, desenvolvida pelo francês Alphonse Bertillon a partir de 1882. O sistema registrava medidas do corpo, como altura, comprimento da cabeça, do braço e do pé, além de fotografias de frente e de perfil. Funcionava, mas exigia instrumentos precisos e operadores treinados, e pequenas diferenças de medição geravam erros.

Ao mesmo tempo, pesquisadores britânicos estudavam as cristas papilares. O cientista Francis Galton demonstrou que os desenhos eram permanentes ao longo da vida e diferentes de uma pessoa para outra, e propôs uma primeira classificação. Faltava, porém, um sistema simples o bastante para uso policial cotidiano.

“No fim do século 19, o método de identificação mais avançado era a antropometria, desenvolvida pelo francês Alphonse Bertillon a partir de 1882.”

O sistema de Vucetich

Juan Vucetich, nascido na Dalmácia, região da atual Croácia, emigrou para a Argentina e trabalhava no serviço de estatística e identificação da polícia bonaerense. Encarregado de implantar a antropometria, leu sobre os estudos de Galton e decidiu testar as impressões digitais como alternativa.

Ele organizou os desenhos em quatro tipos fundamentais, conforme a presença e a posição de pequenas figuras triangulares chamadas deltas: arco, presilha interna, presilha externa e verticilo. Cada dedo recebia uma letra ou número, e a combinação dos dez dedos formava uma fórmula que permitia arquivar e localizar fichas de forma sistemática. Vucetich chamou o método de icnofalangometria; o termo datiloscopia, do grego "exame dos dedos", foi proposto poucos anos depois e acabou adotado.

A eficácia apareceu em 1892, no caso de Francisca Rojas, em Necochea. Dois filhos dela foram encontrados mortos e ela acusava um vizinho. Uma impressão digital de sangue deixada em uma porta mostrou que a marca era dela, e a própria mãe acabou confessando. É considerado um dos primeiros crimes esclarecidos por impressão digital.

A chegada ao Brasil

O método se espalhou pela América do Sul e pela Europa. No Brasil, foi introduzido oficialmente em 1903, por decreto que regulamentou a identificação no então Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro, com participação decisiva de Félix Pacheco na organização do gabinete de identificação. Com o tempo, a datiloscopia passou a ser a base da identificação civil, com a carteira de identidade, e da identificação criminal em todo o país.

O sistema brasileiro de classificação decadactilar manteve os quatro tipos básicos de Vucetich por décadas, e a nomenclatura ainda aparece na formação de papiloscopistas.

Como funciona a comparação de digitais

Duas impressões são comparadas em níveis de detalhe crescentes. Primeiro, o desenho geral, como os tipos de Vucetich. Depois, os pontos característicos, também chamados minúcias: o fim de uma crista, uma bifurcação, uma pequena ilha, um ponto. A posição relativa desses pontos forma um padrão individual.

Na perícia, o trabalho envolve:

Há décadas, sistemas automatizados de identificação de impressões digitais, conhecidos pela sigla AFIS, comparam milhões de registros em pouco tempo e apresentam uma lista de candidatos. A confirmação final, porém, continua sendo feita por especialistas, que examinam os pontos coincidentes e as eventuais divergências.

O lugar da datiloscopia na perícia atual

Mesmo com o avanço do DNA, as impressões digitais seguem entre os vestígios mais usados. São baratas de coletar, rápidas de comparar e aparecem com frequência em locais de crime, veículos e objetos. Também são essenciais na identificação de vítimas de desastres e de pessoas desconhecidas.

O sistema criado em La Plata passou por muitas atualizações, mas a ideia central permanece: um registro organizado, capaz de ligar uma marca deixada em uma superfície a uma pessoa, com método e possibilidade de conferência.

Perguntas e respostas

Quem inventou a identificação por impressões digitais? Vários pesquisadores contribuíram, entre eles Francis Galton, que estudou a permanência e a variedade dos desenhos. Juan Vucetich criou, a partir de 1891, o primeiro sistema de classificação usado de forma rotineira pela polícia.

Duas pessoas podem ter a mesma impressão digital? Não há registro de duas pessoas com impressões idênticas, nem mesmo gêmeos idênticos. A confiabilidade da identificação, porém, depende da qualidade da impressão coletada e do rigor da comparação.

O que é papiloscopia? É o estudo das cristas papilares das mãos e dos pés para fins de identificação. A datiloscopia, focada nos dedos, é a parte mais conhecida da papiloscopia.

Assuntos: Antes, O, A, Como